quarta-feira, março 07, 2007


"... tu já não te lembras. foi há dez anos, neste mesmo quarto, a olhar o Pico, o barcos, o azul-cinza do mar calmo, a cama por fazer, os livros e as revistas espalhados, tu à janela, a olhar lá para fora e depois, sem pressa, num gesto pausado, a camisa de alças a fugir do teu ombro, uma alça apenas, fininha, o teu sorriso a crescer e a frase

anda, anda morder-me o coração.

disseste que os rebuçados eram bolas de neve e esse reconhecimento comoveu-me, como se fizesses mesmo parte do meu mundo, como se dominasses uma linguagem interdita aos outros, tão natural para nós.

declaraste-me oficialmente o homem do teu Verão. e cumpriste a tua palavra. ficámos os dois a ver os barcos e a comer devagar refeições de pão e queijo, peixe e mariscos.



tinhas inveja da ilha por ter mar, por ter liberdade, mas contavas histórias sobre as barcas nos rios e foi contigo que aprendi que quem navega não sabe conversar porque o rio tece mistérios vedados às palavras. contaste-me que em Veneza os gondoleiros têm barbatanas nos pés para poderem andar em cima de água. riste-te, lanças-te a cabeça para trá e os teus óculos caíram na calçada, um barulho de plástico a revirar nas pedras. foi então que descobri o rio nos teus olhos e comecei a amar-te. todos os anos venho aqui. fico no mesmo quarto e vejo-te, de manhã, encostada à brisa que te levantava os cabelos, a dizer

anda, anda morder-me o coração."


patrícia reis, in "morder-te o coração"

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